Como é comum em nosso meio, a cada pequeno movimento do Vaticano, as lampadazinhas se acendem nas cabeças adventistas: seria esse novo desdobramento o estopim da lei dominical predita no Grande Conflito?
Recentemente, o Vaticano, mais especificamente o CPJP (Conselho Pontífico ou Justiça e Paz) entrou na fogueira das discussões financeiras que abalam o mundo ao propor um governo financeiro mundial como a solução para as profundas desigualdades sociais atuais.
É importante ressaltar que a proposta de uma central financeira está em um só parágrafo de um documento de 40 páginas. Idéias similares têm sido propostas por economistas desde os 1940s. Isso não é iniciativa do "Vaticano".
E ao contrário da tendência Adventista de demonizar qualquer iniciativa católica, a sugestão de um poder centralizado na tentativa de igualar as oportunidades financeiras no mundo deveria ser vista como uma oportunidade para o diálogo sobre a desigualdade social, que é justamente o objetivo do documento. É profundamente ingênuo querer considerar um documento desses como detentor do poder de mudar o mundo financeiro.
E a idéia de um governo econômico central que ajude a estabilizar a economial global, por incrível que pareça, está mais próxima do evangelho social que diminui a fome e a dor no mundo, ideais esses que vemos na vida do próprio Jesus.
De fato, os programas sociais da Igreja Católica têm um imenso impacto positivo sobre a sociedade. Compare os números do programa da Caridade Católica com os da ADRA:
Só nos EUA, as Caridades Católicas serviram 8 milhões de novos clientes em 2006, com um orçamento anual de 4.3 bilhões de dólares nos EUA enquanto a ADRA teve orçamento mundial de 73 milhões de dólares. (Fonte: Revista Forbes).
Em vez de usarmos essa breve e pequena sugestão do Vaticano para justificar nossos próprios pressupostos proféticos, caindo assim no triunfalismo, que tal aproveitar o momento para engajar a sociedade no diálogo pela igualdade social, o combate à pobreza, à fome, à miséria?
Isso sem dúvida seria mais louvável do que cair em teorias de conspiração mirabolantes que tendem a meramente legitimizar nossas leituras apocalípticas do que exaltar o plano de Deus para a Igreja na sociedade.
E será que os adventistas que criticam o Vaticano por essa sugestão na realidade preferem o sistema capitalista das economias fragmentadas e opressoras que ao mesmo tempo que enriquece países de primeiro mundo, trata com indiferença bilhões de seres humanos que passam fome e necessidade todos os dias?
Veja a análise de um padre católico sobre o documento:
"Obviamente, aqueles que participaram neste documento juntos acreditam que estão contribuindo para encontrar uma solução para a atual crise financeira global. Infelizmente, eles não conhecem de história. A Justiça Social Católica enuncia princípios para o bom governo e o bem-estar humano. Ela não tenta criar novas unidades ou modos de governo. A especialidade da Igreja está em outro lugar - a pregação do Evangelho. Afinal, Jesus não disse: "Meu reino não é deste mundo"?"
(Padre Michael P. Orsi; Fonte: http://www.crisismagazine.
Acima de tudo, a ânsia Adventista em olhar o Catolicismo como "diabólico" é baseada numa leitura medieval do Catolicismo que ignora as profundas mudanças pelas quais passou a Igreja Católica Apostólica Romana desde o Concílio do Vaticano II na década de 1960. Além disso, a visão Adventista tradicional para os eventos finais falha ao ignorar o impacto do Islamismo sobre o mundo religioso atual. Não há dúvidas que a confrontação apocalíptica contra cristãos fiéis se dará através de um conluio político-religioso nos fins dos tempos, como sempre o foi em realidade. Mas tudo indica que esse conchavo será muito mais abrangente do que o simplista: Estados Unidos & Vaticano proposto pela leitura tradicional Adventista."Ellen White tem um sábio conselho para Adventistas: dediquem menos atenção ao Catolicismo:
"Podemos ter menos a dizer em alguns sentidos quanto ao poder romano e ao papado, mas devemos chamar atenção para o que os profetas e apóstolos têm escrito sob a inspiração do Santo Espírito de Deus..." (Testemunhos Para Ministros, 112).
Nossa missão apocalíptica não deve ser manchada por tentativas especulativas de querer conferir peso profético para cada passo do Papa Bento 16 e do Vaticano. Nosso chamado está acima de leituras questionáveis de eventos cotidianos que tendem a tirar os olhos do alvo supremo que é a pregação do Evangelho para que então venha o fim. Estamos invertendo a grande comissão de Cristo, insistindo em pregar o FIM para que então as pessoas se interessem no evangelho Adventista.
Sugiro que paremos de legislar em causa própria e com as teorias de conspiração tendenciosas, alarmistas e extremistas em nosso meio que em nada melhoram a influência Adventista na sociedade.
Um abraço!

