Combatendo o Sensacionalismo Profético - I

"O Senhor vos chama a fazer decidida melhora em vossa maneira de apresentar a verdade. Não precisais ser sensacionalistas." (Ev 184)


O movimento adventista considera seu surgimento no século 19 como o cumprimento profético de Apocalipse 14, onde os três anjos representam períodos específicos da incepção de nossa igreja após o desapontamento de 1844.

Essa visão profética, baseada em Daniel e Apocalipse conferiu ao nosso movimento um senso de propósito e urgência escatológicos monumentais. Surgimos como uma resposta revolucionária e progressista de retorno à Bíblia através da rejeição de tradições doutrinárias espúrias e repreensão ao marasmo do Evangelicalismo americano do século 19.

Por outro lado, o movimento Adventista surgiu como uma correção à Febre Milenialista escatológica de certos círculos teológicos daquela época. Não éramos os únicos pregando o fim do mundo eminente, mas não éramos dos mais desvairados. Nossa posição firme como pré-milenialistas (i.e., o retorno de Jesus ANTES do milênio) encontrava na Bíblia forte apoio.

A dobradinha Daniel-Apocalipse e sua interpretação historicista (e exageradamente historicista muitas vezes) tornou-se bem dizer o manual adventista. Passamos a ler a Bíblia como um olho para o Apocalipse e o outro no jornal santo de cada dia.

E o Apocalipse em vez de primariamente uma carta a sete igrejas do primeiro século que pregava a necessidade de urgência e preparo para cristãos em todas as épocas, tornou-se em um livro código com paralelos exatos em períodos futuros, uma espécie de Código Da Vinci. Difícil mesmo é justificar algumas dessas abordagens historicistas com base em exegese do texto. Um exemplo disso é a interpretação das sete igrejas como sete períodos proféticos, algo que tem cada vez menos apoio de eruditos adventistas em Novo Testamento.

Impossível de se evitar face a toda essa estrutura escatológica e apocalíptica que praticamente se institucionalizou em nosso meio é o sensacionalismo e alarmismo profético que nos perseguem. Um dos blogs bastante visitados por adventistas hoje é o bem intencionado (embora mal informado) blog Diário da Profecia. Uma passada rápida pelos posts ilustra bem essa abordagem fomentada mais pelo alarmismo do que fundamentada em uma leitura serena da escatologia bíblica.

Um post no dia 1 de Agosto de 2010 alardeou: "Mais de um Milhão de Eleitores Votarão com Identificação de Digitais Esse Ano". E eu pergunto, qual a relevância profética disso? Nenhuma, a menos que o leitor queira que tenha. Isso aí tem cara de teoria de conspiração oriunda na mente daqueles que crêem que o número da besta no Apocalipse é uma maneira de "marcar" as pessoas usando certos tipos de tecnologia digital, código de barras e coisa que o valha.

Outro artigo condena o "Apelo ao Consumismo", outro ainda segreda que "30% do Serviço secreto americano estão nas mãos de empresas privadas", outro revela que "Comunidade hispânica cresce nos EUA". A lista de posts continua ad infinitum incluindo discussões sobre o papel do aquecimento climático para as profecias (outra especulação sem base profética), arengas sobre os perigos da música cristã contemporânea, da bateria na música adventista, críticas a pastores e pensadores progressistas na IASD e a defesa acirrada das heresias de Daniel Spencer e do Adventismo histórico. A maioria das fontes de tais posts é no mínimo duvidosa ou tendenciosa.

E o mais "alarmante" é a mescla dessas notícias alarmistas e irrelevantes para o entendimento e propósito da profecia com posts (ainda que muito raros) sobre sinais do fim que ainda mantém uma leitura mais equilibrada da escatologia adventista. Essa mistura é perigosa.

A internet sem dúvida tem sido uma faca de dois gumes: enquanto permite a criação de sites gratuitos e blogs ubíquitos que promovem essas abordagens "pseudo-escatológicas", ao mesmo tempo ela permite que leitores vejam vários lados da questão, como por exemplo o blog www.AdoraçãoAdventista.com e a Comunidade dos Jovens Adventistas no orkut.

Informação e desinformação existem por toda a parte, é necessária mente crítica para captar o que é falácia e o que tem fundamento bíblico. Afinal de contas, Jesus disse que viria como ladrão na noite, seria uma surpresa. Devemos vigiar e orar. A palavra chave é sobriedade e não excitação alarmista.

Não sei se será possível erradicar o alarmismo e sensacionalismo profético de nosso meio. Mas tenho esperança no aumento gradual do nível de instrução e educação de nosso povo que permite cada vez mais acesso a materiais que equlibram essas questões. Nosso sistema educacional tem formado pensadores fortes, não meros refletores do pensamento de outrem (Educação, 17).

Acima de tudo, precisamos entender que a grande comissão de Jesus relatada em Mateus 28 se baseia na pregação do EVANGELHO primeiramento e ENTÃO virá o fim.

Chega de inverter a fórmula com a política do alarme e do medo.
blog comments powered by Disqus