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Não admira que alguns blogueiros se encontrem extremamente irados com o artigo "Ellen White Era Contra a Bateria?"
O artigo, através de uma pesquisa histórica e isenta nos escritos de Ellen White e dos arquivos Adventistas (Adventist Archives), desmonta um dos argumentos preferidos contra a percussão: descontextualizar um passagem de Ellen White para condenar a bateria.
Não admira que alguns blogueiros se encontrem extremamente irados com o artigo "Ellen White Era Contra a Bateria?"
O artigo, através de uma pesquisa histórica e isenta nos escritos de Ellen White e dos arquivos Adventistas (Adventist Archives), desmonta um dos argumentos preferidos contra a percussão: descontextualizar um passagem de Ellen White para condenar a bateria.
O artigo é baseado em interpretações de historiadores adventistas, inclusive Arthur White, neto e biógrafo de Ellen White.
Veja o que alguns pastores e teólogos têm dito sobre o artigo:
"Gostei muito do artigo, principalmente da parte histórica." Pr. Sérgio S.
"Bem embasado, com fundamento." Pr. Marcelo G.
"Esse artigo caiu do céu, estou tendo bastante problemas com o extremismo na música na minha igreja." Pr. Antônio C.
"Excelente! Creio que os pastores precisam ser educados neste assunto." Pr. G. Santos
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Veja o que alguns pastores e teólogos têm dito sobre o artigo:
"Gostei muito do artigo, principalmente da parte histórica." Pr. Sérgio S.
"Bem embasado, com fundamento." Pr. Marcelo G.
"Esse artigo caiu do céu, estou tendo bastante problemas com o extremismo na música na minha igreja." Pr. Antônio C.
"Excelente! Creio que os pastores precisam ser educados neste assunto." Pr. G. Santos
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Infelizmente, por ser um artigo técnico e incluir muitas notas de rodapé, não é possível inclui-lo aqui no blog diretamente. (Quem sabe vamos incluí-lo em breve.)
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Aqui vão alguns pontos chaves do artigo:
"Note que a resistência em se aceitar certos instrumentos no culto da igreja Adventista não é nova. Desde os primórdios do movimento até 1877, o canto congregacional era feito a cappella. Em 1877 Tiago White e John Loughborough experimentaram resistência quando tentaram incluir um órgão numa campal na Califórnia." (p. 5)
"Infelizmente algumas citações do Espírito de Profecia têm passado tantas vezes pela “moenda” de uma certa interpretação que esta se torna estabelecida ou tradicional, como no caso da música e da percussão, cujas interpretações extremas, baseadas nas mais tênues implicações do que Ellen White escreveu, têm-se tornado a única alternativa para muitos e causado “perplexidade” na igreja." (p. 13)
"Considerando-se a riqueza e variedade dos escritos de Ellen White, tambores recebem pouquíssima atenção. O problema não é o instrumento em si mas o estilo em que é tocado e a falsa doutrina e emocionalismo que acompanham o seu uso." (p. 5)
"Se a percussão fosse incompatível com a música sacra, era de se esperar que ela articulasse sua posição inequivocamente e em termos típicos como: “Foi me mostrado que os tambores e tamborins são ofensivos a Deus e não devem ser usados em seu culto e na música do Senhor.” Mas tal citação não existe." (p. 6)
"Um estudo minucioso da visão de música nos escritos de Ellen White não revela nenhuma preferência por técnicas de composição melódica, ritmo, estilo ou instrumentos da música aceitável, se erudita do período Barroco, Clássico ou Romântico ou mesmo contemporâneo." (p. 8)
"Condenar a percussão por causa do seu uso na música popular contemporânea (fazendo-se assim necessário separar-se do “mundo”) ignora o fato de que a percussão é usada profusamente na música sacra erudita como o Aleluia de Händel." (p. 8)
"Outros argumentos citam a resposta de plantas à música rock, a percussão sendo usada em rituais satânicos ou a influência do ritmo em alterar batimentos cardíacos, entre muitos outros. Mas plantas não são gente e os batimentos cardíacos se alteram constantemente durante o dia quando levantamos, sentamos, corremos, dormimos, e até mesmo quando ouvimos música clássica. Condenar a percussão porque é usada em rituais satânicos, xamânicos etc., é equivalente a condenar o uso da TV para evangelismo porque ela é usada secularmente para promover a violência e a pornografia. Afinal, ninguém está usando a percussão na música cristã para promover possessões demoníacas. Também problemático é o repúdio do estilo de vida de roqueiros e músicos seculares para demonizar a bateria e percussão. O fato é que, com poucas exceções, os compositores da música erudita dos séculos 17-20, que é tida como única aceitável na adoração hoje por muitos, tiveram vida desregrada, espiritualística e promíscua também. Parece que há grande necessidade de repensar as implicações dos argumentos usados contra a percussão." (p. 8)
"Na perspectiva de Ellen White, “imediatamente antes do fim da graça” incluía os fanatismos passados do Adventismo bem como o movimento da Carne Santa e não algo num futuro distante, como nos nossos dias. Afinal, a advertência de que isso ocorreria no tempo do fim precisava ecoar no coração dos ouvintes no contexto imediato de 1901." (p. 10)
"A interpretação corrente da expressão “a história se repetirá” implica que os tambores da música e a heresia da Carne Santa vão se repetir a qualquer custo na igreja adventista, a despeito do repúdio desses desde 1900. Tal interpretação acaba colocando a “bateria” como elemento fundamental da escatologia adventista, o que é em si, uma heresia." (p. 11)
"Atualmente, apesar do zelo de alguns em condenar qualquer nova dinâmica no culto adventista como suspeita, não há evidências de que o fanatismo e excessos do culto da Carne Santa estejam sendo reintroduzidos na igreja Adventista meramente pelo uso da bateria, percussão, guitarra elétrica, contrabaixo ou música adventista contemporânea." (p. 12)
"Nunca foi intenção de Ellen White que sua mensagem para a Carne Santa fosse usada para apoiar aplicações extremas, como a proibição generalizada de instrumentos de percussão na música adventista ou o culto formal. Ellen White nunca apoiou interpretações extremas de seus escritos em nenhum assunto." (p. 12)
Aqui vão alguns pontos chaves do artigo:
"Note que a resistência em se aceitar certos instrumentos no culto da igreja Adventista não é nova. Desde os primórdios do movimento até 1877, o canto congregacional era feito a cappella. Em 1877 Tiago White e John Loughborough experimentaram resistência quando tentaram incluir um órgão numa campal na Califórnia." (p. 5)
"Infelizmente algumas citações do Espírito de Profecia têm passado tantas vezes pela “moenda” de uma certa interpretação que esta se torna estabelecida ou tradicional, como no caso da música e da percussão, cujas interpretações extremas, baseadas nas mais tênues implicações do que Ellen White escreveu, têm-se tornado a única alternativa para muitos e causado “perplexidade” na igreja." (p. 13)
"Considerando-se a riqueza e variedade dos escritos de Ellen White, tambores recebem pouquíssima atenção. O problema não é o instrumento em si mas o estilo em que é tocado e a falsa doutrina e emocionalismo que acompanham o seu uso." (p. 5)
"Se a percussão fosse incompatível com a música sacra, era de se esperar que ela articulasse sua posição inequivocamente e em termos típicos como: “Foi me mostrado que os tambores e tamborins são ofensivos a Deus e não devem ser usados em seu culto e na música do Senhor.” Mas tal citação não existe." (p. 6)
"Um estudo minucioso da visão de música nos escritos de Ellen White não revela nenhuma preferência por técnicas de composição melódica, ritmo, estilo ou instrumentos da música aceitável, se erudita do período Barroco, Clássico ou Romântico ou mesmo contemporâneo." (p. 8)
"Condenar a percussão por causa do seu uso na música popular contemporânea (fazendo-se assim necessário separar-se do “mundo”) ignora o fato de que a percussão é usada profusamente na música sacra erudita como o Aleluia de Händel." (p. 8)
"Outros argumentos citam a resposta de plantas à música rock, a percussão sendo usada em rituais satânicos ou a influência do ritmo em alterar batimentos cardíacos, entre muitos outros. Mas plantas não são gente e os batimentos cardíacos se alteram constantemente durante o dia quando levantamos, sentamos, corremos, dormimos, e até mesmo quando ouvimos música clássica. Condenar a percussão porque é usada em rituais satânicos, xamânicos etc., é equivalente a condenar o uso da TV para evangelismo porque ela é usada secularmente para promover a violência e a pornografia. Afinal, ninguém está usando a percussão na música cristã para promover possessões demoníacas. Também problemático é o repúdio do estilo de vida de roqueiros e músicos seculares para demonizar a bateria e percussão. O fato é que, com poucas exceções, os compositores da música erudita dos séculos 17-20, que é tida como única aceitável na adoração hoje por muitos, tiveram vida desregrada, espiritualística e promíscua também. Parece que há grande necessidade de repensar as implicações dos argumentos usados contra a percussão." (p. 8)
"Na perspectiva de Ellen White, “imediatamente antes do fim da graça” incluía os fanatismos passados do Adventismo bem como o movimento da Carne Santa e não algo num futuro distante, como nos nossos dias. Afinal, a advertência de que isso ocorreria no tempo do fim precisava ecoar no coração dos ouvintes no contexto imediato de 1901." (p. 10)
"A interpretação corrente da expressão “a história se repetirá” implica que os tambores da música e a heresia da Carne Santa vão se repetir a qualquer custo na igreja adventista, a despeito do repúdio desses desde 1900. Tal interpretação acaba colocando a “bateria” como elemento fundamental da escatologia adventista, o que é em si, uma heresia." (p. 11)
"Atualmente, apesar do zelo de alguns em condenar qualquer nova dinâmica no culto adventista como suspeita, não há evidências de que o fanatismo e excessos do culto da Carne Santa estejam sendo reintroduzidos na igreja Adventista meramente pelo uso da bateria, percussão, guitarra elétrica, contrabaixo ou música adventista contemporânea." (p. 12)
"Nunca foi intenção de Ellen White que sua mensagem para a Carne Santa fosse usada para apoiar aplicações extremas, como a proibição generalizada de instrumentos de percussão na música adventista ou o culto formal. Ellen White nunca apoiou interpretações extremas de seus escritos em nenhum assunto." (p. 12)
Leia, estude e deixe seu comentário!
Ellen White Era Contra a Bateria
Na Música Sacra?
Uma
análise sobre o uso de instrumentos musicais na adoração nos escritos de Ellen
White.
André Reis
Bacharel em Teologia pelo IAE-C2, Mestre em Música pela Longy School of Music;
cursa PhD em Teologia com ênfase em
Liturgia e Adoração na Greenwich School of Theology na Inglaterra.
Reside na Flórida com sua esposa e duas
filhas.
__________________________________________
E
|
xiste atualmente uma escola de pensamento no Adventismo que se
opõe a instrumentos de percussão na música por causa de uma passagem de Ellen
White que menciona esses instrumentos de maneira desfavorável. Mas qual era a
posição de Ellen White sobre a percussão, bateria e outros instrumentos na
música adventista? Qual o contexto e aplicação da declaração à música e culto
adventistas no passado e hoje? Este artigo se propõe a esclarecer estas questões
nos escritos de Ellen White.
Pano de Fundo
No ano de 1899 desenvolveu-se um movimento dentro do
Adventismo no estado de Indiana, EUA, chamado movimento da Carne Santa.[i]
Entre outras heresias, a liderança da igreja naquele estado começou a propagar
a idéia de que a conversão levava a um estado de santidade física. Ao obterem o
Espírito Santo através de manifestações físicas, os crentes passariam pelo “jardim”, receberiam “carne santa” e estariam livres do pecado e prontos para a trasladação.
O movimento culminou na campal de Indiana no verão de 1900. Dois
ministros adventistas, Stephen Haskell e A. J. Breed passaram o relato abaixo:
[…] em seus cultos, os fanáticos chegavam
ao êxtase pelo uso de instrumentos musicais como o órgão, a flauta, violinos,
tamborins, trompetes e até um bumbo. Buscavam uma demonstração física e
gritavam, oravam e cantavam até que alguém na congregação caía no chão, prostrado
e inconsciente. Um ou dois homens designados, que andavam pelos corredores,
levavam a pessoa até a frente. Então um grupo de umas doze pessoas se reunia em
volta do inconsciente, alguns cantando, alguns gritando e alguns orando, todos
ao mesmo tempo. Quando o inconsciente se levantava, consideravam-no como tendo
passado pela experiência do Getsêmane, tinha obtido “carne santa” e tinha a fé para a trasladação.[ii]
No dia 25 de Setembro de 1900, Stephen Haskell escreveu para
Ellen White que se encontrava na Califórnia, recém chegada da Austrália:
Há um grande poder que acompanha o
movimento … por causa da música que é tocada… Quando eles chegam a uma nota
aguda, não se escuta a congregação cantando, apenas se ouvem os gritos dos que
estão quase enlouquecidos.[iii]
Entre outras
ameaças à Igreja, o risco de o carismatismo da Carne Santa se alastrar era tão
real que Ellen White havia decidido voltar da Austrália já em janeiro de 1900,
quando recebera a visão do episódio. No dia 17 de abril de 1901, ela leu trechos
da Carta 132 de 1900 a Haskell na reunião da Conferência Geral. A mensagem foi
então incluída no livro Mensagens
Escolhidas, vol. 2, p. 31-39. Com a oposição de Ellen White às heresias do
movimento, o presidente da associação de Indiana e outros líderes confessaram o
erro publicamente e o movimento se desfez.[iv]
A passagem que menciona a percussão e que está no centro da
controvérsia atual diz:
As coisas que descrevestes como ocorrendo em
Indiana, o Senhor revelou-me que haviam de ocorrer imediatamente antes da
terminação da graça. Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos
com tambores, música e dança.[v]
Antes de entrarmos no cerne da questão, é bom um lembrete
sobre a diferença entre exegese e eisegese. A exegese está preocupada em extrair do texto o que está sendo dito,
enquanto a eisegese acrescenta ao
texto o que não foi realmente dito. Eisegese
é o que “eu acho que deveria ter sido dito”, onde uma opinião pré-formada
influencia a leitura e palavras isoladas do contexto tornam-se um fim em si
mesmas.
Neste artigo, vamos nos ocupar com exegese que é o estudo do que Ellen White intencionou nesta
passagem levando-se em consideração o contexto histórico e teológico dos seus
escritos, termos usados e a mensagem central do que está sendo dito. Sobre a
interpretação de suas mensagens, ela recomenda que
Quanto aos testemunhos, coisa alguma é ignorada; coisa alguma é
rejeitada; o tempo e o lugar, porém, têm que ser considerados.[vi]
Veja
a sua preocupação em que o “tempo e lugar”
de suas mensagens tenham a prioridade na sua interpretação e aplicação. Este
ponto é crucial para o entendimento correto da mensagem à Carne Santa.
Tambores: Ponto Central?
Segundo George Knight, historiador adventista e autoridade em
espírito de profecia, um dos princípios fundamentais para se interpretar Ellen
White é enfatizar o centro da mensagem que está sendo dada, e não detalhes
periféricos da mensagem.[vii] Deve-se
então ressaltar que o centro da mensagem das 9 páginas da carta 132 de 1900 é primeiramente expor as heresias doutrinárias
do movimento da Carne Santa. O centro não são os tambores ou a música, e
sim o fanatismo. A preocupação secundária de Ellen White é combater o culto
caótico resultante dessas doutrinas.[viii]
Sobre o culto da Carne Santa em setembro de 1900, ela diz:
“As coisas que me descrevestes… o Senhor me
revelou.”
O
relato da carta de Haskell foi a confirmação de uma revelação que ela havia
recebido em janeiro de 1900,[ix]
oito meses antes de o movimento da Carne Santa florescer. A revelação era
espeficamente sobre o movimento da Carne Santa que ocorreria em 1900. (Esse
ponto será mais explorado no fim do artigo.)
|
Banda
do Exército da Salvação da época
(1894). Em seu relato, Stephen Haskell descreveu o culto e a banda em Indiana
como uma “cópia” dos reavivamentos do Exército da Salvação. À frente se vê um
surdo (bass drum) e outros
instrumentos usados pela Movimento da Carne Santa.
|
O qualificativo “estranho”
refere-se a cada um dos elementos citados. Em outras palavras, além das doutrinas
estranhas, haveria gritos estranhos, tambores tocados estranhamente, música estranha, e dança estranha.
Essa distinção é importante, porque Ellen White não se opôs ao
uso desses elementos quando de maneira a inspirar o crente e exaltar o nome de
Deus em adoração. Vejamos o que ela diz:
a. Gritos de louvor. Cantar, foi me mostrado, frequentemente afasta o inimigo, e gritar em
louvor o derrotaria. [x]
b. Tambores e percussão. O emprego de instrumentos de música não é
de modo algum objetável. ... Os adoradores louvavam a Deus com harpa e com
címbalos, e a música deve ter seu lugar em nossos cultos. Isto acrescentará o
interesse nos mesmos.[xi]
Davi,
e toda a casa de Israel, alegravam-se perante o Senhor, ... com harpas, e com
saltérios, e com tamborins, e com pandeiros, e com címbalos.[xii]
c. Música. A música, quando não abusiva, é uma grande
bênção; mas quando usada erroneamente, é uma terrível maldição.[xiii]
d. Dança. Davi saltava … diante do Senhor…
acompanhando em sua alegria o ritmo do cântico. A música e dança, em jubiloso louvor a Deus … não tinham a mais pálida
semelhança com a dissipação da dança moderna. A primeira tendia à lembrança de
Deus, e exaltava Seu santo nome.[xiv]
Qual era então o papel da música e dos instrumentos no culto
descrito? Ela condenou a música e instrumentos em particular ou a maneira como
eram usados? Qual o papel dos outros elementos extra-musicais? Qual a maior
preocupação de Ellen White ao confrontar a heresia da Carne Santa? E
finalmente, qual a posição de Ellen White sobre o uso de instrumentos no culto
adventista?
Uma pesquisa sobre o contexto histórico do movimento da Carne
Santa fornece as seguintes informações:
1. Os ‘tambores’
eram o que hoje conhecemos por um surdo de fanfarra e três tamborins. Embora a palavra “drums” no original inglês descreva a bateria moderna (ou drumkit), não é o que Ellen White viu.
Segundo Arthur White,[xv] a visão aplicava-se aos tambores
e tamborins da Carne Santa, e não
a nossa bateria moderna, até porque a bateria como instrumento não existia
ainda. Ela foi se desenvolvendo a partir do início do século 20 pela
incorporação de vários instrumentos percussivos (tambores, pratos, etc.) que
passaram a ser tocados por um só músico. Por isso é incorreto comparar os
tambores da época e a bateria moderna, apesar de “drums” defini-los e ambos serem instrumentos de percussão.
Embora não tenhamos a descrição da técnica instrumental usada,
a índole do surdo nos permite concluir que ele se sobressaía a todos os outros
instrumentos e ao canto, criando um som repetitivo, ensurdecedor (como o nome
em português infere) e hipnotizante. Veja que um só surdo é suficiente para uma
fanfarra de vários instrumentos, como se vê na foto.
Tem se concluído que, se Ellen White mencionou tambores por nome, eles é que devem ter
sido responsáveis pelo culto caótico. Mas havia outros instrumentos no culto
cujo mal uso ela também condenou, como veremos abaixo. O fato de ela ter
singularizado os tambores indica apenas que, em sua visão do episódio, o surdo
se sobressaía aos outros instrumentos na música. Que ela menciona “tambores e música” parece apoiar
essa conclusão. Embora os tambores fossem parte
da música, ela os ouvia acima da música,
(outros instrumentos e canto), contribuindo para o culto caótico, onde todos
tocavam, cantavam e oravam, pulavam e gritavam ao mesmo tempo resultando em
“ruído e confusão”.[xvi]
2. Ellen
White inclui "música" e
outros instrumentos nesse cenário. De
acordo com S. Haskell e outros, a música caótica da Carne Santa incluía um
órgão, duas flautas, três violinos, três tamborins, um contrabaixo acústico,
trompetes, um tambor grave ou surdo, o canto congregacional e possivelmente um
coral. Portanto a evidência é que todos os elementos musicais acima, bem como orações,
gritos histéricos, desmaios, juntamente
com tambores levavam ao êxtase e "tudo
o que é estranho”.
Precisamos nos ater ao que ela disse. Veja que Ellen White não
condenou música, assim como não
condenou tambores em si. Se Ellen
White condenou música e os outros
instrumentos, será que devemos
excluir o canto congregacional, o órgão, violinos, trompetes e flautas em
nossas igrejas? Se vamos traçar um paralelo, embora equivocado para condenar os
tambores (bateria), ele precisa ser
consistente e tudo o que se refere a música
também precisa ser removido do culto.
Ellen White, porém, expande sua posição ao dizer da música do
movimento da Carne Santa:
É melhor nunca ter o culto do Senhor misturado com música do que usar instrumentos musicais para fazer a obra que …
seria introduzida em nossas reuniões campais.
Satanás opera entre a algazarra e a
confusão de tal música, a qual, devidamente dirigida [*incluindo
o canto, o órgão, flautas, violinos, trompetes, percussão], seria um louvor e glória para Deus.
Satanás fará da música um laço pela maneira por que é dirigida.[xvii]
Para ela, todos os instrumentos de Indiana eram
culpados pelo seu uso inapropriado. Esse desdobramento da posição de Ellen
White é crucial para entendermos sua real intenção ao condenar o que ocorria em
Indiana. É claro que o uso inapropriado
da música e instrumentos causava o barulho e o caos, não os elementos em si.
A bateria e
percussão, assim como o piano, o órgão, o violino se tocados apropriadamente
podem facilitar o louvor vibrante e “acrescentar o interesse”[xviii] no culto, sendo assim para o “louvor de glória de Deus” ou para ser um “laço” nas mãos do inimigo.
Na realidade, um órgão de tubos, considerado como o “rei dos
instrumentos” se for tocado de maneria caótica tem maior potencial de “chocar os sentidos” do que a bateria ou
percussão. Imagine um órgão com 20.000 tubos tocado no último volume, com o tutti ativado, sem qualquer noção
harmônica ou musical, por uma hora sem parar enquanto a congregação canta e ora
ao mesmo tempo. Por ser muito maior a amplidão da frequência sonora dos tubos
do órgão do que a da percussão, a “balbúrdia
e ruído” deste seria exponencialmente maior do que a bateria, mesmo que
amplificada. Logicamente não é o instrumento em si que é mal e sim uso
deturpado que gera ruído e confusão.
3. A música do movimento era usada para
acompanhar, enfatizar e expandir conceitos teológicos do movimento. Sem
a heresia de êxtase física e “carne santa” para a trasladação, a música
extremamente excitante, que levava as pessoas à experiência do “jardim” (desmaios e contorsões), não
teria razão de ser. A música e o culto não surgiram num vácuo mas iam de mãos
dadas com as crenças do grupo. Ellen White abordou primeiramente essas crenças
em sua carta e advertiu contra permitir que elementos teológicos estranhos
levassem a igreja a adotar estilos de adoração que exaltassem essas
manifestações estranhas. Quando a heresia
foi desmascarada, o culto caótico desapareceu.
4. Ellen White não está aqui condenando o uso de percussão e outros
instrumentos per se.juntamente
com os outros instrumentos estavam sendo usados para criar um êxtase
emocional e físico. Novamente, é importante se ater ao
que foi realmente dito. Os tambores,
Não eram os instrumentos em si e sim o seu uso em estimular a
manifestação de “tudo que é estranho”
no culto que os fazia condenáveis. Eles faziam parte de um pacote de falsa adoração.
Ela não está condenando percussão, assim como não está condenando o órgão ou
violinos presentes naquele culto. Ela adverte quanto ao uso inapropriado que fazemos deles levando
ao caos na adoração e tornando a música um “laço”.
5. Os gritos do movimento da Carne Santa eram mais próximos a ataques de
histeria do que louvor.shriek”, que
não tem um termo correspondente em português. Ela descreve um grito agudo
estridente, de histeria ou terror. A palavra usada por S. Haskell para descrever os
gritos da carne santa é “
No
início de seu ministério, Ellen White gritava “Glória, glória, glória” no
início de suas visões. Essa prática de dar brados de louvor era comum no culto
adventista primitivo. Tiago White chamou de “mornos, enganados e endurecidos” os que se opunham aos gritos de
louvor.[xix]
O
grito de louvor no culto adventista da época era uma referência direta ao Salmo
98:4: “Celebrai com júbilo ao Senhor, todos os habitantes da terra; dai brados de alegria, regozijai-vos, e
cantai louvores.” (Veja também Salmo 132:9). Em Apocalipse 19:6, João descreve
uma multidão que brada tão alto que ele parece ouvir trovões: “Também ouvi uma voz como a de grande
multidão, como a voz de muitas águas, e
como a voz de fortes trovões, que dizia: Aleluia! porque já reina o Senhor
nosso Deus, o Todo-Poderoso”.[xx] O
bradar aqui é o desejo incontrolável de louvar a Deus, muito diferente dos
gritos estridentes da Carne Santa.[xxi]
6. A ‘dança’ que ela
menciona ter visto no culto em Indiana não era para adorar como recomenda Davi
no Salmo 150 e sim um movimento estranho, espasmódico, que parecia incluir
desmaios e era resultante do êxtase físico que acompanhava o culto. Como
demonstramos acima, Ellen White sabia a distinção entre a dança afetada de movimentos
estranhos ou sensuais[xxii] e
a dança “que tendia à lembrança de Deus”.
(Veja Jeremias 31:13). Ellen White aqui aceita um tipo de dança ou
movimento com características litúrgicas, que lembram a Deus e exaltam o Seu
nome.
Portanto,
em resposta à pergunta inicial dessa seção, “Tambores: Ponto Central?” parece claro que os tambores em Indiana
eram apenas um elemento do cenário e
não o centro da atenção. Além disso, Ellen White não condenou os tambores como
originadores da heresia e do culto, como pretendem algumas interpretações da
passagem. Eles eram secundários a uma teologia de adoração deturpada.
Também parece clara a distinção entre a legitimidade dos
outros elementos da adoração adventista da época e o seu uso desvirtuado no
culto da Carne Santa.
Abaixo veremos outros aspectos importantes do contexto em
questão.
Ellen White e Instrumentos Musicais
Uma busca da frequência da palavra “drums”, (tambores) nos
escritos de Ellen White[xxiii]
resulta em apenas 15 referências, das quais 14 são repetições da Carta 132 de
1900, que como vimos, se refere a um surdo de fanfarra e não à bateria moderna,
embora o termo “drums” defina os
dois. A outra referência relata uma visita de Ellen White a Basel, Suíça em
dezembro de 1886, onde ela viu um treino militar de soldados e jovens suíços
usando tambores.[xxiv]
Já a palavra para tamborim
na versão King James da Bíblia
inglesa, “timbrels”, é mencionada
somente 2 vezes, ambas favoravelmente no contexto de celebrações do povo de
Israel. O outro termo para tamborim é “tabret”
citado em Isa. 5:11 e também no encontro de Saul com um grupo de profetas de
Deus que tocavam “saltério, tamborins,
flauta e a harpa.” [xxv]
Pela aparente falta de interesse no instrumento em si, o
historiador adventista Arthur Patrick conclui que:
considerando-se
a riqueza e variedade dos escritos de Ellen White, tambores recebem pouquíssima
atenção. … O problema não é o instrumento mas o estilo em que é tocado e a
falsa doutrina e emocionalismo que acompanham o seu uso. O uso de tambores
é visto por Ellen White como tendo os mesmos problemas que a música tem.
Obviamente o ponto em questão não é música em si, mas música inapropriada.[xxvi]
Note que a resistência em se aceitar certos instrumentos no
culto da igreja Adventista não é nova.
Desde os primórdios do movimento até 1877, o canto
congregacional era feito a cappella. Em
1877 Tiago White e John Loughborough experimentaram resistência quando tentaram
incluir um órgão numa campal na Califórnia. Loughborough leu o Salmo 150 e até
adicionou ‘órgãos’ na lista para defender
o uso de instrumentos na adoração. Apesar do receio, os presentes notaram que o
canto congregacional melhorou sensivelmente! [xxvii]
Ellen White também interpretou os Salmos e seus instrumentos
como literais e, por sua vez, não preferiu certos instrumentos em detrimento de
outros. Ela falou em favor de se usar o
violão no culto e quando esteve na Suécia, ela pediu que uma senhora
não-adventista cantasse ao som do violão na abertura das reuniões.[xxviii]
Sobre a inclusão de vários
instrumentos no culto, ela diz:
Nas reuniões realizadas, escolham-se alguns para tomar parte no
serviço de canto. E seja este acompanhado de instrumentos de música habilmente
tocados. Não nos devemos opor ao uso da música instrumental em nossa obra.[xxix]
Em nossas reuniões campais deve haver canto acompanhado de instrumentos
musicais.[xxx]
O emprego de instrumentos de música não é de modo algum objetável. ... Os
adoradores louvavam a Deus com harpa e com címbalo [percussão], e a música deve ter seu lugar em nossos cultos. Isto acrescentará o interesse
nos mesmos.
Veja que ela não tentou criar uma distinção arbitrária entre
instrumentos “sacros” e “profanos”.[xxxii]e.g.,
mulheres oficiando, a congregação participando dentro do “santuário”, enquanto
instrumentos musicais que eram usados no Templo também faziam parte de festas e
cultos pagãos.[xxxiii]
Por isso, o que ocorria no Templo não é modelo para o que ocorre na Igreja pois
ambos tinham diferentes funções.[xxxiv]
Não há em seus escritos nada que apóie essa distinção, tampouco há na Bíblia.
Citar certos instrumentos musicais e outros elementos omitidos ou incluídos no
ritual do Templo como modelo para nossa adoração é incoerente, pois elementos
que incluímos hoje foram omitidos,
Ellen White se opôs a qualquer instrumento, não só de
percussão, quando usado para criar confusão na adoração e em apoio a
manifestações estranhas e caóticas:
É melhor nunca ter o culto do Senhor misturado com música do que usar instrumentos musicais para fazer a obra que …
seria introduzida em nossas reuniões campais. … Uma
balbúrdia de barulho choca os sentidos e perverte aquilo que, se devidamente
dirigido, seria uma bênção.[xxxv]
Veja que ela inclui aqui todos os instrumentos musicais que
estavam sendo usados na campal em Indiana, como vimos acima e não somente os “tambores”. É digno de nota que para
apoiar uma certa interpretação, se enfatize os tambores somente, mas claramente
não é essa a intenção da mensagem. Veremos mais sobre essa prática no fim do
artigo.
Se tambores e percussão fossem incompatíveis com a música
sacra, era de se esperar que ela articulasse sua posição especificamente e em
termos típicos como: “Foi me mostrado que os tambores e tamborins são ofensivos
a Deus e não devem ser usados em seu culto e na música do Senhor” como ela fez
em outros assuntos de vital importância para a igreja Adventista. Mas tal
citação não existe. Por isso, justificar a proibição indiscriminada do uso da
bateria hoje porque ela traz automaticamente “ruído e confusão” não pode ser sustentada pelos escritos de Ellen
White.
Na Bíblia, tamborins e címbalos e outros instrumentos eram
usados em situações de exultação, na adoração vibrante e para festividades do
povo de Deus.[xxxvi] Essas
características da percussão nos permitem concluir que se a bateria for
habilmente utilizada na música e no culto, sem se tornar um fim em si mesma e
como parte de um contexto musical
equilibrado, ela pode na realidade facilitar o culto energético e vibrante que
Ellen White preferia ao culto formal e friamente solene.[xxxvii]
Esperar também que todos toquem os mesmos instrumentos e
tenham o mesmo talento musical não é a visão Bíblica da adoração. O Salmo 150
permite que todos usem seus variados talentos musicais em adoração a Deus:[xxxviii]
Aleluia! Louvem a Deus no seu
santuário, louvem-no em seu magnífico firmamento. Louvem-no pelos seus feitos
poderosos, louvem-no segundo a imensidão de sua grandeza! Louvem-no ao som de
trombeta, louvem-no com a lira e a harpa, louvem-no com tamborins e danças, louvem-no
com instrumentos de cordas e com flautas, louvem-no com címbalos sonoros,
louvem-no com címbalos ressonantes. Tudo o que tem vida louve o SENHOR!
Aleluia!
(Salmo 150, NVI)[xxxix]
e Ellen White adiciona que
A diversidade de dons leva
à diversidade de operações mas é “o mesmo Deus que opera em todos. (1 Coríntios
12:6).[xl]
…pois nem todas as
mentes devem ser alcançadas pelos mesmos métodos.[xli]
Estilo da Música
É importante ressaltar também que Ellen White não aborda o
estilo composicional da música da Carne Santa. Ela se concentra no efeito da
música quando agregada a práticas estranhas e caóticas no culto. Ela concorda
que as mesmas músicas usadas de maneira apropriada, seriam uma bênção.[xlii]
Segundo o testemunho da irmã Haskell, o movimento usava o
hinário adventista da época[xliii] e
também a coletânea Garden of Spices[xliv] que refletia o estilo
de reavivamentos do Exército da Salvação
(veja nota de rodapé 1) e que continha algumas melodias populares da época com
letra cristã.[xlv]
É importante explorar essa questão porque os argumentos contra
a bateria não se limitam a citar o movimento da Carne Santa, mas incluem também
outras citações de Ellen White que supostamente apóiam um certo estilo de
musical em detrimento de outro.[xlvi]
Porém, um estudo exaustivo e minucioso da visão de música nos escritos de Ellen
White não revela nenhuma preferência por técnicas de composição melódica,
ritmo, estilo ou instrumentos da música aceitável, se erudita do período
Barroco, Clássico ou Romântico ou mesmo contemporânea.[xlvii]
Note também que condenar a percussão por causa do seu uso na
música popular contemporânea ou na música étnica (fazendo-se necessário “separar-se do mundo”) ignora o fato de
que ela é usada profusamente na música sacra erudita para enfatizar o ritmo da
música, para criar expectativa ou para atingir um clímax na música. Talvez o
exemplo mais conhecido seja o Messias
de Händel onde os tímpanos (tambores) são peça chave para criar o clímax final
do Aleluia. J. S. Bach, compositor
sacro por excelência, também usava os tímpanos com liberdade. Fica difícil
imaginar que Ellen White se oporia ao Aleluia de Händel porque usa a percussão.
Embora não haja instruções específicas sobre um estilo de
composição sacro, Ellen White dá sim qualidades gerais da música apropriada
para a adoração (especialmente a cantada) como suave, harmoniosa, solene e
comovente e ao mesmo tempo exultante, animada, energética e com poder[xlviii],
qualidades essas que não são necessariamente incompatíveis com a música cristã
contemporânea que usa a bateria ou percussão.[xlix]
A Bateria e o Fim dos Tempos
Como demonstramos acima, os tambores que Ellen White viu eram
aqueles usados em Indiana e não a bateria moderna. Poderíamos parar por aqui e
considerar o paralelo entre os dois como incorreto e a proibição atual, falsa.
Mas infelizmente, a “profecia dos
tambores” tem se tornado um exemplo clássico de descontextualização e
desvirtuamento do que Ellen White intencionava.
Para sermos fiéis à intenção original da mensagem e aplicá-la
corretamente, precisamos respeitar a perspectiva do período de tempo e o lugar
a que ela se refere. Como vimos anteriormente: “Quanto aos testemunhos,
coisa alguma é ignorada; coisa alguma é rejeitada; o tempo e o lugar, porém,
têm que ser considerados.[l]
Ellen
White recebeu a visão sobre o movimento da Carne Santa em janeiro de 1900, oito
meses antes de ele surgir em Indiana:
Mas em janeiro último o Senhor
mostrou-me que seriam introduzidos em nossas reuniões campais teorias e métodos
errôneos, e que a história do passado se repetiria.
As coisas que descrevestes como ocorrendo em Indiana, o Senhor revelou-me
que haviam de ocorrer imediatamente antes da terminação da graça.
Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e
dança.
É melhor nunca ter o culto do Senhor misturado com música do que usar
instrumentos musicais para fazer a obra que, foi-me apresentado em janeiro último, seria introduzida em nossas
reuniões campais.
O Espírito Santo nada tem que ver com tal confusão de ruído e multidão de
sons como me foram apresentadas em janeiro
último.[li]
Veja
como Arthur White, neto, biógrafo e depositário de Ellen White aplica a visão:
Ellen White recebeu
a revelação do que iria ocorrer em janeiro de 1900 quando estava na
Austrália. A obra estranha estava apenas se desenvolvendo em Indiana e
ela viu o que ocorreria na reunião campal.[lii]
Primeiramente, note que para descrever a Carne Santa, Arthur
White usa o mesmo termo, “estranha”
que Ellen White usa para o que ocorreria “no
futuro”, ou seja na reunião campal de setembro de 1900 quando o movimento
aflorou. Sendo que a carta foi lida por Ellen White na Conferência Geral em
abril de 1901, o “futuro” aqui também
se refere à reunião campal que estava prestes a ocorrer dois ou três meses
depois, no verão de 1901 se a heresia se perpetuasse na igreja Adventista. Portanto, Arthur White em seu relato do episódio
aplica a mensagem da carta de Ellen White estritamente ao que ocorreu em
Indiana em 1900-1901.
Ellen White continua dizendo que
Essas coisas que aconteceram no passado hão de ocorrer no futuro. …
Deus convida Seu povo, que tem a luz diante de si na Palavra e nos Testemunhos,
a ler e considerar, e dar ouvidos. Instruções claras e definidas têm sido dadas
a fim de todos entenderem.
As “coisas do passado”
não se referem ao movimento da Carne Santa, como se quer aplicar hoje, e sim a
outros movimentos fanáticos que surgiram no Adventismo na década de 1850-60.[liii]
Portanto, quando aplicamos “as coisas que
aconteceram no passado” a Indiana em 1900, estamos ferindo a intenção
original de Ellen White e potencialmente desvirtuando o sentido da mensagem.
Mais sobre esse ponto a seguir.
Para ajudar no entendimento do uso correto da passagem em
questão e a aplicação de seus conceitos ao culto e música adventistas hoje, dois
pontos devem ser explorados:
Primeiro, Ellen White entendia que o tempo
imediatamente precedente ao fechamento da porta da graça, quando esses
elementos se apresentariam, era em seus dias.
Note que ao mesmo tempo que ela diz
As coisas que descrevestes como ocorrendo em Indiana … haviam de
ocorrer imediatamente antes da terminação da graça.
ela complementa dizendo
Muitos movimentos dessa espécie surgirão em nossos
dias, quando a obra do Senhor deve manter-se elevada, pura, sem
superstições e fábulas.[liv]
Portanto, “em nossos
dias” e “no tempo do fim da graça”
para ela são sinônimos. Pelo contexto e aplicação geral da carta estritamente
ao movimento da Carne Santa (como demonstrado por Arthur White), deve-se
entender o “haviam de ocorrer” como
sendo uma descrição do próprio movimento da Carne Santa que Deus revelou em
janeiro de 1900 haviam de ocorrer em
setembro de 1900, “nas reuniões campais”.
Faz sentido em nossa perspectiva concluir que esse culto falso com tambores,
gritos e coisas estranhas reapareceria hoje, “no futuro”, ou porque vivemos mais “imediatamente antes do fim da graça” mas para Ellen White, esse
tempo era em seus dias.
O termo “imediatamente”
também apresenta dificuldades. Quão imediatamente
antes do fim da graça isso ocorreria? Duas semanas, 1 ano, 5 anos, 20 ou 100
anos?
Lembre-se que em Sua bondade, Deus não revelou aos seus
profetas ou a Ellen White quanto demoraria tempo o fim. Daniel 8:26-27 diz que
a visão era para dias “mui distantes”
mas nem mesmo Daniel a entendeu, pois estava selada. Paulo ao falar da trasladação diz: “nós, os que ficarmos”, referindo-se à
vinda de Cristo (1 Tess. 4:12); Jesus disse a João: “Eis que cedo venho” (Apo. 22:12) mas já se
passaram 1900 anos; Pedro diz em 2 Pedro 3:8: “um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia”.
Todos eles esperavam que fosse em seus dias.
Por essa razão, a expressão “imediatamente antes do fim da graça” têm um significado bem mais
dinâmico do que um ponto específico no tempo. (Para todos os efeitos, no
entendimento Adventista, depois de 1844 já estamos “imediatamente antes do fim da graça”). Na perspectiva, de Ellen
White esse período incluía os fanatismos passados do Adventismo bem como o
movimento da Carne Santa e não algo num futuro ainda distante, como nos nossos
dias. Afinal, a advertência de que essas manifestações ocorreriam “no tempo do fim” precisava ecoar no
coração dos ouvintes no contexto imediato de 1901.
Ainda falando na conferência geral de 1901 sobre o fanatismo
de 1900, Ellen White disse:
“Prepare-se,” é a palavra que soa aos
meus ouvidos. … Aquele que esta por vir virá e não tardará.”[lv]
E a resposta definitiva da igreja Adventista em repelir o
carismatismo da Carne Santa é prova contundente de que a liderança entendeu que
viviam “imediatamente antes do tempo do
fim da graça”.
Segundo, assim como outras profecias na Bíblia (Jonas) e do Espírito de Profecia,[lvi] a continuação ou ressurgimento desse
estilo de culto no Adventismo estava condicionado pela resposta da igreja às
heresias que o fomentavam. Se
as heresias doutrinárias que estimulavam esse culto caótico não fossem
condenadas e removidas de maneira categórica, essas manifestações continuariam
a ocorrer na igreja Adventista “em nossos
dias”, “no futuro”, em 1901 e
além. A música se tornaria “um laço”
para perpetrar falácias teológicas e um culto espúrio. Mas ao mesmo tempo ela
diz que Deus dá instruções para que isso seja evitado.
Afinal, havia a possibilidade de que as pessoas envolvidas no
movimento da Carne Santa não acatassem ao conselho e continuassem em suas
práticas, ou que a igreja como um todo ignorasse ou até estimulasse essas
manifestações. Sendo assim, as heresias e o fanatismo do passado continuariam a
ressurgir no futuro. Em suas palavras:
O fanatismo, uma vez iniciado e deixado às soltas, é tão difícil de
extinguir como o incêndio que tomou conta de um prédio.[lvii]
Daí a necessidade de fortes advertências sobre a possibilidade
de que o falso culto e suas doutrinas viessem a se enraizar e se repetir no
futuro.
É fundamental também entender qual a intenção de Ellen White
ao usar a expressão “a história se
repetiria” no contexto da Carne Santa. Assim como na Bíblia, precisamos
comparar o uso de palavras e expressões em vários contextos por Ellen White
para entendermos corretamente sua intenção ao usá-la. Vejamos abaixo outros exemplos:
Há o perigo de que a história
do passado venha a se repetir.[lviii]
A história passada
se repetirá, … e o perigo ameaçará o povo de Deus por todos os lados.[lix]
Desprezam a
evidência da operação de Deus e a história se repete.[lx]
E essa experiência
se repetirá, a menos que o coração dos homens se convertam e se transformem
completamente.[lxi]
Homens e mulheres
que entendem a vontade de Deus devem ser escolhidos … para que os erros do
passado não se repitam.[lxii]
A história de Datã e
Abirã se repete hoje e se repetirá até o fim dos tempos. Quem estará ao lado
do Senhor?[lxiii]
E ao mesmo tempo em que ela adverte quanto ao “perigo” de a história se repetir, ela diz:
As coisas do passado
se repetirão. … Mas o povo de Deus
… sabe onde está firmado. Eles devem ficam firmes como uma rocha.[lxiv]
Esta história se
repetirá. … O povo de Deus finalmente triunfará sobre todo o poder das
trevas.[lxv]
Nada temos que
recear quanto ao futuro, a menos que esqueçamos a maneira em que o Senhor nos tem guiado, e os
ensinos que nos ministrou no passado.[lxvi]
Veja que há sempre a possibilidade de que a
história não se repita ao nos colocarmos “ao lado do Senhor” entendendo “Sua
vontade” e não nos esquecendo dos “ensinos do passado”.
Note também que ela usa a expressão de maneira
incondicional somente ao se referir às
profecias de Daniel a Apocalipse:
Estude Apocalipse em
relação a Daniel; porque a história se repetirá.[lxvii]
A história se
repetirá. A falsa religião será exaltada. O primeiro dia da semana … será
estabelecido como a imagem de Babilônia.1,2,3
Portanto, o uso dessa expressão por Ellen White ao se referir à história
da igreja Adventista (ou do povo de Israel) denota sempre um “perigo” ou possibilidade de que a história venha a se repetir se os conselhos
de Deus forem rejeitados.
Na visão de Ellen White a repetição do fanatismo, música e
culto caóticos estava condicionada pela resposta da igreja Adventista como um
todo às lições aprendidas no passado. Ao confrontar o movimento, Ellen White
condenou de forma inequívoca os erros doutrinários que estimulavam o falso
culto, alertando sobre o perigo real de que eles viessem a se manifestar
continuamente no futuro. Os envolvidos em Indiana e a liderança da igreja em
geral responderam e o movimento se desfez.
É importante entender esse aspecto de condicionalidade da
visão, porque a interpretação corrente da expressão “a história de
repetirá” implica que os “tambores”
e outros excessos da música da Carne Santa vão se repetir a qualquer custo na
igreja Adventista, a despeito do repúdio desses desde 1900 e da falta do
fundamento teológico que os estimule. Tal interpretação acaba colocando a “bateria” como elemento fundamental da
escatologia adventista, o que é em si, uma heresia.
Outro ponto importante a ser considerado é o fato de a “profecia dos tambores” não ser
mencionada em nenhuma outra parte dos escritos de Ellen White Quando ela
menciona a Carne Santa em seus escritos posteriores, ela se detém à heresia
teológica, e não aos “tambores”.[lxviii] Se
estes ou a bateria moderna viessem se tornar uma ameaça constante à igreja até
o fim dos tempos, era de se esperar que ela mantivesse a advertência sempre
presente e a articulasse em outras cartas ou escritos ou até expandisse a visão
de maneira específica. Mas ela não parece crer que, no contexto da igreja Adventista, a aplicação do termo “tambores” (‘drums’) transcendia o movimento da Carne Santa e se aplicava à
bateria moderna (também ‘drums’) como
vimos acima. O termo tambores na
Carta 132 aplica-se estritamente ao movimento da Carne Santa.
E a história mostra que o culto em Indiana de fato se tornou
uma dura advertência para o Adventismo sobre os perigos de heresias carismáticas
que levam ao êxtase emocional e físico na adoração. Felizmente, graças ao
conselho inspirado, podemos afirmar com segurança que não há no entendimento
doutrinário Adventista do Sétimo Dia o pano de fundo para que essas heresias e
seu respectivo culto floresçam novamente.
Até hoje, mais de 100 anos depois, os excessos do movimento não têm se
perpetrado em nosso meio. Para Ellen White e a igreja Adventista, o
movimento da Carne Santa era causa e cumprimento da profecia.
No entanto, contextualizar a visão e a sua aplicação como
faz-se necessário para se evitar extremos de interpretação, não significa que a
advertência contra o fanatismo se limita a Indiana em 1900 ou que estejamos
imunes a ele e seu falso culto. Como ela disse: “Quanto aos testemunhos, coisa alguma é
ignorada; coisa alguma é rejeitada…” A passagem contém princípios
transcendentes para evitar que a “história
se repita”. A igreja deve continuar em sua vigilância seguindo o conselho
da “Palavra e nos Testemunhos” para
que heresias carismáticas e o fanatismo não se desenvolvam dando lugar ao culto
e música caóticos da Carne Santa.
Mas note que os “gritos
com tambores, música e dança” da Carne Santa em 1900 não esgotam as
manifestações espiritualísticas que ocorreriam desde meados do século 19 até o
fim dos tempos. Prova disso é o
que ocorre em igrejas pentecostais tradicionais onde o êxtase e as
manifestações espiritualísticas podem ocorrer mesmo na ausência de música
hipnotizante ou com percussão. Um exemplo é a Congregação Cristã no Brasil, que
utiliza música tradicional e não permite a percussão em sua música mas onde o
êxtase e “tudo o que é estranho”
continua a ocorrer. No caso deles há “gritos
sem tambores”.
Porém o fato de que outros grupos pentecostais usam tambores não fazem desses os
originadores do culto com “ruído e
confusão” necessariamente, porque o falar em línguas, exorcismos, curas, e
outras manifestações estranhas são promovidos por sua teologia e não pela
música. Daí a preocupação primordial de Ellen White em combater o entendimento
doutrinário da igreja que poderia dar lugar ao falso culto, não o inverso. Por
isso é inadequado cair no extremo de considerar a música ou um instrumento
musical como o originadores de heresias teológicas e do falso culto como tem-se
interpretado. [lxix] [lxx]
Aqui
novamente vemos a importância de proteger a igreja da teologia que para Ellen
White poderia dar lugar ao falso culto, seja com êxtase ou solene formalidade.
Atualmente,
apesar do zelo de alguns em condenar qualquer nova dinâmica no culto como suspeita
e ameaçadora, não há evidências de que os excessos do culto caótico em
questão estejam sendo reintroduzidos na igreja Adventista ou que a “história esteja se repetindo” meramente
pelo uso da bateria, percussão, guitarra elétrica, contrabaixo ou música
adventista contemporânea.
Precisamos nos perguntar com franqueza:
1. É justificável comparar o caos total, gritos estridentes,
pessoas cantando enquanto outras oram em voz alta, música ruidosa e
hipnotizante que levavam as pessoas a desmaiarem e outras manifestações da
Carne Santa com o culto adventista que usa música com a bateria?
2. Seria coerente chamar a música que usa instrumentos com os
quais não estamos acostumados ou que apenas tem volume mais alto do que o
habitual, ou um culto mais vibrante de “baderna
e barulho, confusão e ruído”?
3. Considerando-se a importância da influência teológica sobre
a visão do culto, é possível detectar alguma heresia carismática infiltrando-se
na igreja Adventista como um todo hoje e que vá levar ao desenvolvimento desse
estilo de culto, fazendo a história se repetir?
O Uso da Percussão na Igreja Adventista
desde 1900
Que a igreja repudiou por completo a heresia da Carne Santa,
não há dúvidas. Mas qual foi a resposta da igreja em relação aos instrumentos
musicais mencionados por Ellen White em sua visão, especialmente os tambores?
Será que a Igreja Adventista baniu instrumentos de percussão depois da campal
de Indiana em 1901 e só mais recentemente é que estes têm ressurgido na forma
da bateria, em “desobediência” ao conselho divino?
Uma busca por referências à palavra “drums” nas publicações oficiais da igreja desde 1901 no Adventist Archives produz centenas de
menções a percussão, tambores, címbalos, tímpanos e inclusive bateria, o que
mostra que estes continuaram a fazer parte da música sacra de instituições,
escolas e orquestras adventistas. Cito aqui alguns exemplos da União do Lago,
onde floresceu a Carne Santa:
No Emmanuel Missionary
College, atual Andrews University,
os alunos tocavam tambores já em 1915, num culto de gratidão pela Lei Seca Americana.[lxxi]
Orquestras rítmicas com címbalos, tambores, bateria, triângulos e castanholas
também eram comuns em escolas adventistas de Michigan já na década de 1920-30.[lxxii] Os
tímpanos de orquestra que vimos acima são utilizados pelas orquestras de
escolas adventistas na adoração desde o início da nossa obra educacional.
A Review and Herald
tinha uma banda composta por funcionários que era usada em campanhas evangelísticas, cultos e concertos de
música sacra e nacionalista desde o início do século.[lxxiii] O
infame surdo, idêntico ao da Carne Santa, levava o nome Review and Herald Band (veja foto). O surdo também tem sido parte
das fanfarras dos Desbravadores desde seu início em 1926, representando a
juventude adventista em passeatas e marchas comemorativas.
Tambores também são mencionados nos cultos vibrantes de
missões adventistas na África.[lxxiv] Na
Conferência Geral de 1966, o relatório da Divisão Transafricana foi introduzido
pelo hino “Ó Cristãos, Avante!” ao
som do órgão e tambores tocados pelo secretário daquela divisão.[lxxv]
Tambores tem sido usados nas Conferências Gerais nos relatórios das missões africanas
e outras regiões desde os primórdios.
É digno de nota o fato de que a passagem dos tambores foi
usada pela primeira vez fora de seu “tempo
e lugar” na Review and Herald de
dezembro de 1936 pelo seu editor F. D. Nichols. Veja que ele não aplica a visão
à igreja Adventista e sim a movimentos carismáticos da época. Porém, esse
primeiro uso descontextualizado da passagem numa revista Adventista parece ter
dado origem a outros décadas mais tarde, em 1970[lxxvi] e
1974[lxxvii] e
mais recentemente no livro Eventos Finais
p. 159[lxxviii], que começaram a ser
aplicados para a igreja Adventista numa aparente tentativa de conter o uso da
percussão. Mais uma vez a tradição de interpretação de uma certa passagem não
significa necessariamente que seja a correta, como vimos acima.[lxxix]
Os poucos exemplos acima do uso da percussão na música
adventista desde 1901 mostram que a igreja não interpretou a mensagem à Carne
Santa como uma proibição universal a nenhum instrumento musical ou à percussão.
Tampouco tem havido por parte da liderança da Igreja como um todo a proibição
da percussão, seja no Manual da Igreja ou em qualquer outro voto da Associação
Geral desde 1900. No Brasil, as gravadoras adventistas usam a percussão e
bateria há décadas sem que a igreja tenha se tornado um movimento pentecostal
ou carismático. Pelo contrário, o uso da percussão na música adventista não tem
impedido que o Brasil continue a ser o país mais adventista no mundo.
Um Convite ao Equilíbrio
Nunca foi intenção de Ellen White que sua mensagem para os
irmãos da Carne Santa fosse usada para apoiar posições extremas, como a
proibição generalizada de instrumentos de percussão na música adventista ou o
extremismo do culto formal e “constrangido”. Ela nunca apoiou interpretações
extremas de seus escritos em nenhum assunto. Note que o problema era comum já
na sua época:
Há uma classe de pessoas sempre dispostas a escapar por alguma tangente,
que desejam apreender qualquer coisa estranha, maravilhosa e nova; mas Deus
quer que todos procedam calma e ponderadamente … Devemos guardar-nos de criar
extremos, de animar os que tendem a estar ou no fogo, ou na água.[lxxx]
O que me preocupa é o perigo de cairmos
no outro extremo.[lxxxi]
Quando serve ao vosso desígnio, tratais os Testemunhos como se neles
crêsseis, citando trechos deles para reforçar qualquer declaração em que
desejais prevalecer.[lxxxii]
A reforma de saúde torna-se a deformação da saúde, destruidora da saúde,
quando levada a extremos.[lxxxiii]
Um exemplo,
embora não musical, mas que ilustra bem o risco de se cair nos extremos em um
determinado assunto é o caso dos ovos. Em Testimonies, vol. 2, p. 400 ela diz: “Ovos não deveriam
ser postos em sua mesa” e em Conselhos Sobre o Regime Alimentar, p. 204,
ela diz “Coma ovos cozidos ou crus.”
O problema é que cada referência se aplica a um caso específico, a um “tempo e lugar” e não devem ser tomados isoladamente
como proibições ou permissões universais.[lxxxiv]
Tiago White expande o pensamento dizendo:
Enquanto Satanás tenta muitos a serem
lentos demais, ele tenta outros a serem muito rápidos. A obra da irmã White é
dificultada, e às vezes com perplexidade, pela obra dos extremistas, que
consideram o único lugar seguro o se apegar às interpretações mais extremas das
expressões que ela usou, enquanto outras interpretações são possíveis. Essas
pessoas frequentemente se apegam à sua intrepretação de uma expressão, e forçam
o assunto a qualquer custo e ignoram suas advertências quanto ao cair em
extremos. Sugiro que estes afrouxem seu apego às expressões mais fortes de
Ellen White, que são para os mais lentos, e apóiem suas convicções sobre as
muitas advertências que ela fez para benefício dos extremistas.[lxxxv]
E George Knight conclui
que:
Quando lemos as passagens que intermediam
e equilibram um tópico, em vez de ler somente as mais extremas que reforçam
nossas opiniões pessoais, estamos mais próximos da perspectiva de Ellen
White. … A fim de evitar interpretações extremas, precisamos ler amplamente o
que Ellen White diz sobre um determinado assunto, mas também precisamos acatar
às declarações que se equilibram em cada extremo de determinado assunto.[lxxxvi]
Infelizmente algumas citações do Espírito de Profecia têm
passado tantas vezes pela “moenda” de uma certa interpretação que esta se torna
estabelecida ou tradicional, como é o caso da
percussão na música, cujas aplicações extremas, baseadas nas mais tênues
implicações do que Ellen White escreveu, têm-se tornado a única alternativa e
causado “perplexidade” na igreja.
Conclusão
Voltando à pergunta título desse estudo, “Ellen White Era Contra a Bateria?” Primeiramente, é fundamental
reiterar que os “tambores” na visão
se referiam estritamente ao surdo e tamborins da Carne Santa e não à bateria
moderna, como foi amplamente demonstrado acima.
No entanto, considerando-se que a bateria utiliza de “tambores”, podemos responder a pergunta
com ‘sim’ e ‘não’. Ela seria sim
contra a bateria (e qualquer instrumento musical) se esta se tornar um fim em
si mesma na música e no culto, causando “ruído e confusão”, auxiliando um culto
e música caóticos que se tornam um “choque aos sentidos” e um “laço” de Satanás
para promover heresias teológicas e tudo o que é “estranho” na adoração. Ou ela
não seria contra a bateria ou
percussão em geral se estas forem usadas em obediência ao Salmo 149 e 150, de
maneira hábil, como parte de um contexto musical equilibrado, onde os
instrumentos, cantores e congregação participam em “espírito e em verdade”,
“com entendimento”, facilitando assim um louvor contrito e ao mesmo tempo
exultante e “energético” a Deus.[lxxxvii]
Portanto é seguro concluir que Ellen White não promoveu a
proibição indiscriminada da percussão ou de nenhum instrumento musical quando
usados habilmente por músicos embuídos do espírito do culto. Ela condenou sim o
mal uso desses instrumentos no culto
caótico, ruidoso e hipnotizante que acompanhava as heresias carismáticas e excessos
do movimento da Carne Santa.
Implicações secundárias deste estudo se referem à ausência de
preferência a estilos ou princípios de composição musical nos escritos de Ellen
White, exceto em se tratando de qualidades desejáveis da música na adoração que
podem ser compartilhadas tanto pela música sacra clássica (ou erudita) quanto
pela música cristã contemporânea e seus respectivos instrumentos.[lxxxviii]
Concluímos
também que, no que tange aos aspectos escatológicos da mensagem à Carne Santa,
o uso da passagem fora de seu “tempo e
lugar” tem levado a interpretações extremas como a proibição da percussão
na música e culto adventistas, algo que Ellen White a nunca intencionou.
Historiadores
da igreja Adventista sugerem que a música e o culto adventistas se tornaram “constrangidos” ou “cuidadosamente
planejados”[lxxxix] por causa da Carne Santa e acabaram caindo
no outro extremo, a formalidade, que Ellen White condenou veementemente.[xc]
O professor adventista Arthur Patrick conclui que:
…a
evidência aponta para a necessidade de uma interpretação mais cuidadosa do
assunto (bateria na música) do que simplesmente exortar à proibição da mesma
que tem-se visto em reavivamentos adventistas – que não é mais lógica do que a
proibição de órgãos na história cristã primitiva … Instrumentos musicais são
destituídos de moralidade inerente; porém a maneira como os usamos pode ter
influências morais.
O uso da bateria
para Ellen White tem os mesmos problemas de se usar música. Há que se
concordar que o problema não é a música em si, e sim música inapropriada. Os adventistas precisam
ler o Salmo 150, bem como as advertências sobre estilo de música, a despeito da
escassez das mesmas nos escritos de Ellen White.[xci]
Sem
dúvida o desejo de seguir o conselho inspirado é louvável. Porém, o zelo
desmedido da interpretação que não leva em conta o “tempo e lugar”, a
verdadeira intenção e o cerne da mensagem do Espírito de Profecia, barateia suas
visões criando interpretações extremas sobre um determinado assunto. E os que
buscam um equilíbrio na questão da música objetivando assim um culto menos
formal e mais vibrante pela inclusão do “cântico novo” e novos instrumentos,
são rechaçados pelos “tambores” de Indiana.
Jan Paulsen, presidente da Associação Geral dos Adventistas em
sua página de diálogo com jovens adventistas “Let’s Talk” (Vamos Conversar) diz sobre a percussão:
Podemos dizer sobre qualquer instrumento que não
depende do tipo do instrumento mas como ele é utilizado. Em algumas igrejas na
África Ocidental, por exemplo, um tambor de mão tradicional pode ser o único
acompanhamento que os cantores têm para louvarem a Deus. Na Indonésia, um
instrumento tradicional de percussão feito de bambu - o Angklung - pode ser o
instrumento utilizado para a adoração.[xcii]
E sobre estilos de música que usam a percussão ele diz:
Aqueles entre nós que estão
acostumados com a música muito clássica temos que reconhecer que há um grande
número de nossos membros, especialmente os das gerações mais jovens que, de
maneira bastante significativa e consagrada, são capazes de expressar seu
louvor e testemunho através da música que é mais moderna. Em Melbourne na
semana passada, a música que eu ouvi foi em grande parte muito bonita, mas
tinha um toque bem moderno.[xciii]
O Dr. David Newman, pastor da igreja Adventista New Hope em
Maryland, EUA, relata o que acontece em sua igreja:
As emoções têm seu lugar, instrumentos musicais
têm seu lugar. Uma
ferramenta pode construir ou destruir. … Na
igreja em que sou pastor, cantores e uma banda instrumental com bateria lideram
um louvor vibrante todo sábado, cantando o que há de melhor na música cristã
contemporânea. Não há “balbúrdia e ruído”, tudo é feito com decência e ordem.
Os membros são abençoados e Deus é exaltado.[xciv]
Na visão de Ellen White, não é plano de Deus que Sua igreja oscile
entre os extremos do culto formal, que ela condenou como sendo um “mal”[xcv] e
o emocionalismo desvairado do carismatismo; também não é Seu plano vê-la
dividida, entre tradicionais e progressistas, jovens e os de idade, veteranos
na fé e calouros, aqueles que acham sua predileção musical aceitável e a outra,
suspeita e ameaçadora, aquele instrumento aceitável e este, profano. Esta
ênfase em diferenças de opinião nos distancia cada vez mais da “unidade na diversidade”[xcvi],
sentimento imprescindível da igreja que adora. (Salmo 133:1).
n
[i] O chamado
Movimento da Santidade (Holiness Movement)
que surgiu entre os Evangélicos nos Estados Unidos em meados de 1840 fez
incursões no Adventismo desde os seus primórdios. Um de seus instrumentos de
propagação eram os cultos do Exércio da Salvação. A Carne Santa era apenas mais
uma dessas várias tendências perfeccionistas e carismáticas do Adventismo. Veja
White Estate: Theologial Crises http://www.whiteestate.org .
[ii] Mensagens Escolhidas, vol. 2 p. 31.
[iii] Arthur L.
White, The Early Elmshaven Years (Review and Herald Pub. Assn. 1981), vol.
5, p. 102.
[iv] Essas manifestações não eram novas
e seu ressurgimento apresentavam um perigo de que o Adventismo se tornasse um
movimento carismático. Ainda na época do desapontamento de 1844, Ellen White
também presenciou um culto estranho e caótico onde instrumentos também eram mal
utilizados. Veja Mensagens
Escolhidas, vol. 2, p. 34, no
original inglês: “One could not tell what
was piped or what was harped” (I Cor. 14:7), uma possível alusão a
instrumentos traduzido na
versão em português como: “Não se podia
distinguir uma coisa da outra.”
[v]
Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 36. É recomendável a leitura do livro Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 31-39 para melhor entendimento
deste estudo. Ele poder ser lido aqui http://www.ellenwhitebooks.com/?l=28&p=31]
[vi] Ibid., vol. 1, p. 57.
[vii] George
Knight. Reading Ellen White (Review
and Herald) 1997.
[viii] Pensar que Ellen White, com 73
anos de idade viajou por semanas de navio, trem e carroça apenas para combater
a percussão na música adventista é um barateamento infeliz de seu ministério.
[ix] Arthur L.
White, The Early Elmshaven Years (Review and Herald Pub. Assn. 1981), vol.
5, p. 100.
[x] Manuscript Releases, vol. 21, p. 238. Em inglês
“shouting” descreve brados em louvor a Deus, como um “Aleluia!” ou “Glória a
Deus!” O uso do termo vem do Salmo 98:4: “Shout to the Lord!”. Essa prática
adventista primitiva foi discutida no artigo “Glory! Glory! Glory! When Adventists shouted for joy" por Ron Graybill. Adventist
Review 164:40 (1 de Outubro de 1987), p. 12–13.
[xi] Evangelismo, p. 150.
[xii] Patriarcas e Profetas, p. 705. Címbalos eram
instrumentos de percussão usados no Templo e na adoração israelita e que foram
incluídos na bateria com o nome de “pratos”.
[xiii] O Lar Adventista, p. 408.
[xiv] Patriarcas
e Profetas, p. 707.
[xv]Arthur L.
White, The Early Elmshaven Years (Review and Herald Pub. Assn. 1981), vol.
5, p. 104.
[xvi] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 36.
[xvii] Ibid., p. 37, 38.
[xviii] Evangelismo, p. 150;
[xx] Talvez a
coisa mais próxima desse “trovão”
seja o furor de milhares de vozes de um estádio de esportes quando se faz um
ponto: o som é ensurdecedor, todo-envolvente, irresistível. A volta de Jesus
também será acompanhada pelo fortíssimo brado de um arcanjo (1Tess.
4:1).
[xxi] Ainda
usando a analogia do estádio de esportes, por que nós adventistas não vemos
problema em gritar “Gol!” a todos os pulmões quando nosso time marca um, mas
nos escandalizamos com um “Aleluia!” ou “Glória a Deus!” na Igreja? É
necessário um estudo mais profundo sobre o “gritar
em adoração” à luz da Bíblia e da história da Igreja Adventista.
[xxii] The
Voice in Speech and Song, p. 424. Ela
não reprova todos os movimentos indiscriminadamente tais como gestos suaves e
que ressaltem as palavras e sim os movimentos bruscos e estranhos dos músicos e
pastores. Paulo recomenda levantar as mãos nas reuniões cristãs (1 Timóteo 2:8)
e Davi cantava o Salmo 28 levantando as mãos a Deus (Salmo 28:2).
[xxiii] Site
oficial do Ellen White Estate: http://www.whiteestate.org.
[xxiv] The Youth's Instructor,
22 de dezembro de 1886.
[xxv] The Review and Herald, 1
de Junho de 1897; 22 de Junho de 1882; Patriarcas e Profetas, p. 610, 704. Veja 2 Samuel 6; 1
Sam. 10:10; Êxodo 15:20.
[xxvi] Arthur Patrick. Early Adventist Worship, Ellen White and the Holy
Spirit:
Preliminary Historical Perspectives. http://www.sdanet.org/atissue/discern/flesh.htm
[xxvii] Historical
Dictionary of Seventh-day Adventists, p. 205.
[xxviii] Historical Sketches of the Foreign
Missions, p. 195.
[xxix] Evangelismo, p. 507.
[xxx] Testimonies, vol. 6, p. 62.
[xxxi] Ibid., pp. 150, 503.
[xxxii] Tentar desqualificar a bateria
porque é usada na música rock ignora o fato de que o piano e o órgão são
instrumentos centrais na música rock,
jazz e country, entretanto não parece haver a mesma preocupação em se
retirar esses instrumentos da música adventista.
[xxxiii]Isaías 5:11-12: “Ai dos que se levantam cedo para correrem atrás da bebida forte e
continuam até a noite, até que o vinho os esquente! Têm harpas e
alaúdes, tamborins e pífaros, e vinho nos seus banquetes; porém não olham para
a obra do Senhor”. As
harpas que eram usadas no Templo estavam também nas festas seculares que
incluíam também a prostituição. Portanto, esses instrumentos não são
necessariamente “sacros” e nem maus por natureza.
[xxxiv]Ed Christian, Make a Joyful Noise: A Sensible Look at Christian Music, p. 75-76. Se formos traçar paralelos entre a Igreja e Templo,
precisamos ser consistentes. A Igreja precisa ter somente homens oficiando, ela
precisa ser dividida em dois compartimentos, a congregação não entra nela e
precisa haver sacrifícios de animais. Não posso escolher o que é modelo por
conveniência. Por essa razão, o Templo em seus rituais é paralelo somente com o
Santuário no céu (Heb. 9) e não da
Igreja, porque os dois têm funções diferentes. O que ocorre na Igreja é
mais próximo ao que acontecia nas reuniões da Igreja primitiva, onde a palavra
era pregada e havia hinos e canções espirituais, levantar de mãos por toda a
congregação e convívio social. (Col. 3:16; Efé. 5:19, 20). Se insistirmos no
paralelo, então usemos somente os instrumentos listados em 1 Crônicas e a
música deve ser mais próxima do estilo judaico, de preferência em hebraico!
[xxxv] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 36.
[xxxvi]Gênesis 31:27; 1 Samuel 10:5-6; Jó 17:6, 21:11-14;
Salmo 81:2; Isaías 24:8; Jeremias 31:4; Ezequiel 28:13. (Certas traduções da Bíblia
mencionam o tamborim como fazendo parte do caráter musical de Lúcifer em seu
estado não caído em Ezequiel
28:13). Parte do argumento pela
proibição da percussão é a tentativa de traçar uma distinção entre a adoração
que ocorria nas festividades e a adoração no Templo. Essa dicotomia artificial
ignora o fato de que Deus aceitava tanto a adoração no Templo como as festas
onde se celebrava os atos divinos com tambores, pandeiros, címbalos e dança.
[xxxvii] “Vi
que havia grande necessidade de mais energia nas reuniões dos que guardam os
mandamentos.” EGW Manuscript 3, 1853(Manuscript Releases
vol 5, p. 424). Em 1845,
Ellen White assistiu a um culto onde a adoração foi tão vibrante e o volume tão
alto que chamaram a polícia para prender o líder do grupo, Israel Damman. Ellen
White, porém, que estava presente, falou que o poder de Deus estava lá. (Spiritual Gifts, vol. 2, p. 40). Tiago White cantava batendo o
ritmo dos hinos na sua Bíblia (William A Spicer, Pioneer Days of the Adventist
Movement, p. 147). Veja também Evangelismo, p. 507, Patriarcas e Profetas, p. 523.
[xxxviii] Bacchiocchi em seu livro O Cristão e a Música Rock (p. 223)
rejeita o uso de instrumentos de percussão dos Salmos 149-150 porque os
considera não-literais. Essa interpretação não é aceita por comentáristas do
livro de Salmos, nem mesmo Ellen White. Se os tamborins e a dança não são
literais, então todos os outros precisam ser figurativos também e ficaríamos
sem música na adoração.
[xxxix] Condenar
algo que a Bíblia aprova, i.e., percussão no louvor, é cair num dos “ais” de
Isaías: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que põem as trevas por
luz, e a luz por trevas, e o amargo por doce, e o doce por amargo!” (Isa.
5:20).
[xl] Testimonies, vol. 9, p. 144.
[xli] Ibid., vol. 6, p. 116.
[xlii] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 37, 38.
[xliii] The Seventh-day
Adventist Hymn and Tune Book for Use in Divine Worship. (Review and Herald, 1893).
[xliv] Garden of Spices: A Choice Collection for
Revival Meetings, Missionary Meetings, Rescue
Work, Church and Sunday Schools. (Indianapolis:
Grace Pub Co.) 1900.
[xlv]
Note que essa tática era comum na igreja
Adventista desde os primórdios. Urias Smith e outros pioneiros adaptaram várias
canções populares com letra sacra para o hinário adventista da época. James
Nix explora bem essa questão em Early
Advent Singing (Review And Herald, 1994)
p. 119. Dois
exemplos são a melodia de Stephen Foster de 1851, “Way Down Upon the Suwanee River” que tornou-se “Da Linda Pátria
Estou Mui Longe” e a canção romântica “Bonny
Eloise”, “Quão Doces São as Novas”. No Hinário Adventista, dois exemplos:
“Oh, Fronte Ensangüentada” vem de “Mein
G’muth ist mir verwirret”, canção romântica do século 18 usada por Bach com
letra sacra; e “Há Um País”, melodia popular irlandesa “Londonderry Air” ou “O Danny
Boy”. Obviamente isso não é licença para se usar qualquer estilo de melodia
popular com letra sacra, pois isso estaria caindo num extremo de interpretação
que Ellen White evitava a todo custo.
[xlvi] Outros argumentos citam a
resposta de plantas à música rock, a percussão sendo usada em rituais satânicos
ou a influência do ritmo em alterar batimentos cardíacos, entre muitos outros.
Mas plantas não são gente e os batimentos cardíacos se alteram constantemente
durante o dia quando levantamos, sentamos, corremos, dormimos, e até mesmo
quando ouvimos música clássica. Condenar a percussão porque é usada em rituais
satânicos, xamânicos etc., é equivalente a condenar o uso da TV para
evangelismo porque ela é usada secularmente para promover a violência e a
pornografia. Afinal, ninguém está usando a percussão na música cristã para
promover possessões demoníacas ou rituais satânicos. Também problemático é o
repúdio do estilo de vida de roqueiros e músicos seculares para demonizar a
bateria e percussão. O fato é que, com poucas exceções, os compositores da
música erudita dos séculos 17-20, que é tida como única aceitável na adoração
hoje por muitos, tiveram vida desregrada, espiritualística e promíscua também.
Parece que há grande necessidade de repensar as implicações dos argumentos
usados contra a percussão.
[xlvii] Ellen White relata ter ouvido “a mais linda música instrumental” numa
praça pública na Suíça (Manuscrito
33, 1886) mas não
temos detalhes específicos de que música era. Por ser uma reunião social
pública, a música era possivelmente alguma valsa vienense popular no período ou
outra música celebrativa de Mozart ou Haydn. Seguramente não era música sacra, era música secular. Em
outra ocasião ela menciona ter ouvido linda música vocal (Carta 8, 1876).
Note que nesses relatos, ela não procura traçar nenhum paralelo entre a música
secular erudita com a música sacra, embora essa fosse uma ótima oportunidade
para que ela delineasse similaridades desejáveis de ambas.
[xlviii] Patriarcas e
Profetas, p. 591; Evangelismo, p. 505-8, 512; Educação, p. 39; Manuscript
Releases vol 5,
p. 424.
[xlix] Evangelismo, p. 510, 512. Ela preferia não incluir músicos
profissionais que aparentemente ofereceriam música de “alta qualidade” no culto
mas que não estivessem imbuídos do espírito da adoração. Essa regra não é
inflexível, pois ela dispôs de músicos não-adventistas também.
[l] Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 57.
[li] Ibid., p. 36-37.
[lii] Arthur L.
White, The Early Elmshaven Years (Review and Herald Pub. Assn. 1981), vol.
5, p. 104.
[liii] Testimonies, vol.
1, p. 232. O fanatismo em Wisconsin tinha elementos semelhantes ao da Carne
Santa onde havia balbúrdia e confusão. Ainda na época do desapontamento de 1844, Ellen White também
presenciou um culto estranho e caótico. Veja Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 34.
[liv] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 36, 34.
[lv] Review and Herald, 30/04/1901, p. 10
[lvi]Em
maio de 1856, Ellen White profetizou que alguns em sua audiência seriam
“comida de vermes” e outros passariam pelas sete pragas e outros ainda seriam
trasladados na segunda vinda de Jesus. Obviamente, isso era uma profecia
condicional. Veja Testimonies for the Church, vol.
1, pp. 131-132.
[lvii] Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 35.
[lviii] Manuscript Releases, p. 34.
[lix] Maranata, p. 30.
[lx] The Paulson Collection, p. 11.
[lxi] Pamphlet 151.
[lxii] Letters to Sanitarium
Workers in Southern California (1905), p. 22.
[lxiii] Eventos Finais, p. 173.
[lxiv] Manuscript Releases, vol. 1, p. 47.
[lxv] Review and Herald, 5 de Dezembro de 1907.
[lxvi] Eventos Finais, p. 72
[lxvii] The Ellen White 1888 Materials, p. 1491.
1,2,3 Eventos Finais, p. 134.
[lxviii] Veja Evangelismo, p. 594, 600.
[lxix]Um
ponto importante no entendimento de Ellen White sobre a adoração é que a mera
ausência de “balbúrdia e ruído” ou
êxtase não implica necessariamente em um culto verdadeiro. O culto da Igreja
Católica Apostólica Romana, que por 1260 anos na Idade Média lançou por terra
as verdades da Bíblia, utilizava apenas o melhor da música da época, o Canto
Gregoriano e não apresentava nenhum desses elementos da Carne Santa, muito
menos a percussão. No entanto sobre a música do culto católico, ela diz: “A música é excelente. As belas e graves notas do órgão, misturando-se à
melodia de muitas vozes a ressoarem pelas elevadas abóbadas e naves
ornamentadas de colunas, das grandiosas catedrais, não podem deixar de
impressionar a mente com profundo respeito e
reverência. Este esplendor, pompa e cerimônias
exteriores, que apenas zombam dos anelos da alma ferida pelo pecado, são
evidência da corrupção interna. … O fulgor do estilo não é necessariamente
índice de pensamento puro, elevado. Altas concepções de arte, delicado apuro de
gosto, existem amiúde em espíritos que são terrenos e sensuais. São freqüentemente
empregados por Satanás a fim de levar homens a esquecer-se das necessidades da
alma, a perder de vista o futuro e a vida imortal, a desviar-se do infinito
Auxiliador e a viver para este mundo unicamente.” O Grande
Conflito, p. 566-567.
[lxxi] Lake Union Herald, 1915, 14 de Abril
1915, p. 8.
[lxxii] Ibid, 1931, vol. 23, n. 43, p. 2.
[lxxiii] Columbia Union Visitor, 29 de novembro
de 1934, p. 6.
[lxxiv] Lake Union Herald, 22 de setembro de
1953, p. 1.
[lxxv] Review and Herald, 21 de Junho de 1966,
p. 3-4.
[lxxvi] Review and Herald, julho de 1970, p. 21.
[lxxvii] Ministry, julho de 1974, p. 21.
[lxxviii] Embora
haja uma advertência quanto a contextualizar a passagem na p. 159 do Eventos Finais,
a citação é usada de maneira universal para a igreja.
[lxxix] Knight explora várias dessas
descontextualizações de Ellen White que levam a interpretações extremas.
George Knight. Reading Ellen White.
(Review and Herald). 1997
[lxxx] Testemunhos para Ministros, p. 227-228.
[lxxxi] Fundamentos da Educação Cristã, p. 378.
[lxxxii] Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 43.
[lxxxiii] Conselhos Sobre o Regime Alimentar, p.
202.
[lxxxiv] Veja Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 176.
[lxxxv] Review
and Herald, março de 1868, citado em Reading
Ellen White (George Knight), p. 73.
[lxxxvi] George
Knight. Reading Ellen White, pp. 74.
[lxxxvii] O uso
da bateria requer o mesmo critério aplicado ao piano, por exemplo, quando é
parte de uma orquestra ou banda no que se refere à equalização, natureza da
música sendo tocada, se suave ou exultante, clímax e relaxamento da música,
entre outros aspectos a serem explorados pelo ministro de música juntamente com
sua equipe.
[lxxxviii] Afinal, a música que muitos
consideram como a única aceitável na adoração hoje, um dia foi contemporânea
também!
[lxxxix] Seeking a
Sanctuary: Seventh-day Adventism and the American Dream (2nd ed.). Bloomington,
Indiana: Indiana University Press. 2006. pp. 221.
[xc] Sobre o
“mal do culto formal”, veja Evangelismo, p.
507; Patriarcas e Profetas, p. 523; Review and Herald, 1 de Junho, 1886; EGW
Manuscript 3, 1853; Testimonies, vol. 9, pp. 143-144.
[xci] Arthur
Patrick, Later Adventist
Worship, Ellen White and the Holy Spirit:
Further Historical Perspectives. Publicado na revista At Issue online: http://www.sdanet.org/atissue/discern/flesh.htm.
[xciv]J. David Newman, Is Ellen
White Opposed to Contemporary Music? p. 5. (Online no site www.lookingforachurch.org). O
papel das emoções no culto Adventista precisa ser novamente explorado na visão
de Ellen White para que o repúdio dessas não leve ao culto formal e sem vida
que ela chamou de “um mal”, ou que
uma ênfase em sua preeminência crie o canteiro onde tendências carismáticas
tomem raízes.
[xcvi] 1 Coríntios 12:6. Veja Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 21-22.




